Sexta-feira, Setembro 16, 2011


O Dom que nos identifica

Uma das piores coisas que nos poderia acontecer enquanto cristãos seria a de pensarmos que, precisamente por sermos cristãos, Cristo teria como que a obrigação de ser mais nosso amigo. É que ser cristão é precisamente o contrário: é ser amigo de Cristo, é deixar-se incomodar pela sua Palavra, é crescer para Ele, configurar com Ele a nossa vida, fazer-Lhe dom (oferta) da nossa existência toda e, particularmente, das expressões da inteligência (o que se pensa), da vontade (o que se quer) e sobretudo do amor (o que se ama). Ser cristão é da lógica do dom, da confiança, do oferecimento.

E se ser cristão é da lógica do dom, então também qualquer vocação cristã específica tem como alicerce a mesma lógica. Quem não confia também não se deixa interpelar nem chamar; quem não sai de si mesmo também não sabe acolher; quem não é capaz de se dar também não sente alegria ao receber; quem não sabe agradecer também não é capaz de viver sem estar permanentemente a exigir recompensas, a evidenciar e expor direitos, a reivindicar atenções para satisfação pessoal. Entrar na lógica do dom é surpreender e surpreender-se na gratuitidade. É antecipar-se na caridade. É aí que acontece a nossa maior semelhança com Deus e é aí que somos mais homens.

A Igreja tem rezado muitíssimo esta dimensão da vida cristã e, muito particularmente, da vida dos Presbíteros e de todos os que são chamados a vocações específicas.

Os Presbíteros, por exemplo, pertencendo ao Senhor, são os servidores do baptismo dos seus irmãos cristãos que o mesmo é dizer que são servidores da fé do povo de Deus e que são servidores da renovação dessa mesma fé. Estão, por isso, marcados por uma unção que os identifica ao Bom Pastor, Jesus Cristo. É por isso que os cristãos esperam encontrar no Padre não apenas um homem que os acolhe, que os escuta voluntariamente, que lhes testemunha simpatia, amizade ou solidariedade, mas também e sobretudo um homem que os ajuda a olhar para Deus, a elevar-se para Ele e a projectar a vida com base n’Ele. Sacramentalmente. O serviço de Deus é, aliás, o fundamento sobre o qual se constrói o autêntico serviço dos homens.

E tudo na Igreja é diferente quando a vida é agradecida e se saboreia como dom. A própria autoridade com que os Presbíteros são investidos em nome de Cristo não é senão a autoridade do amor que é sempre proporcional ao dom de si. De facto, o grande poder que Cristo confere aos seus Presbíteros é o de amar, o de servir e entregar as suas vidas. E nunca está tudo feito. A sua vida é sempre de busca da verdade e de procura da capacidade de permanente caridade. É sempre possível aprender a dar-se mais e, sobretudo, a dar-se melhor. Com coração mais unificado, mais alegre e mais livre. Mas só um coração filial, que confia, consegue acolher esta graça que é a capacidade do dom de si. É isso que constrói presbíteros competentes, conscientes, compassivos e comprometidos.

p. Emanuel Matos Silva

Terça-feira, Setembro 13, 2011


PADRE PARA A NOSSA DIOCESE

Ordenação Sacerdotal – Desafio aos Padres e aos Jovens

O próximo dia 18 de Setembro é dia de profundo significado para a nossa Diocese. Pela oração e imposição das mãos do nosso Bispo rodeado do seu Presbitério e pela oração da Igreja na multiplicidade da sua expressão, o agora Diác. Nuno Miguel será ordenado Presbítero (Padre) para o serviço da nossa Diocese.

No momento actual da nossa vida diocesana, a ordenação de um Presbítero é momento intenso de acção de graças ao Bom Pastor e é, incontornavelmente, ocasião favorável para os Presbíteros reavivarmos o dom do nosso ministério e fazermos, renovadamente, da nossa identidade e missão uma oferta agradável a Deus e à Igreja.

O que faz, no tempo actual, avançar um jovem de trinta anos no caminho do Sacerdócio e na nossa Diocese? Seguramente contar-se-ão muitas razões e muitos sentimentos. Existe um, contudo, como alicerce e como caminho, que não pode faltar: quem aprende a passar da “vontade de ser amado” para a “vontade de servir” sente-se crescer e é capaz de sintonizar e comungar com projectos que não são apenas seus e para si. E quem aprende a “vontade de servir” amadurece e aprende também que a vida só ganha sentido quando se procura sentido para a vida. É nesse horizonte que Jesus Cristo, como Pessoa e como sentido para a vida, cativa e acompanha os que se deixam cativar e acompanhar nos seus passos. É sempre fabulosa a vida de quem se sente a caminhar com os seus próprios pés numa história que não começou apenas em si e não acabará consigo. É quando a inquietação se transforma em confiança (fé) e ambas desabrocham na gratidão, que a pessoa está capaz de se entregar para um projecto que não tem apenas as suas medidas humanas mas que, nem por isso, deixa de ser precisamente para homens. E Jesus e a Igreja valem a pena e, sobretudo, valem a vida!

O que podem os outros fazer por mim? É a interrogação mais comum e é própria do nosso tempo em que, literalmente, substituímos a pergunta “o que é verdade?” pela simples inquirição de “como posso viver bem?”. Mas essa interrogação é própria apenas de quem ainda só tem “vontade de ser amado”. Para crescer é preciso aprender a ter “vontade de servir” ou seja, é preciso começar a perguntar-se “o que posso fazer eu pelos outros?”. É isso que faz possíveis os grandes projectos de vida. Só quem aceita fazer esse crescimento aceita ser chamado.

Ser Padre é um grande projecto de vida. Radical. Não no sentido habitual e costumeiro dos ditos grandes projectos ou feitos arriscados: não se dá muito nas vistas como instância social incontornável, não se brilha como centro aonde todos buscam a opinião para a vida, não se é tido em conta quando se projecta o mundo, sai-se ridicularizado de muitos processos adjectivados de “contemporâneos”, etc, etc. Mas tem-se uma vocação única que, aliás, é tão constitutiva da vocação sacerdotal como o foi da vida e da Cruz de Jesus: a insignificância, ser insignificante, “inútil” como diz o Evangelho para nos lembrar que não é o utilitarismo social, pessoal, institucional, financeiro que nos move quando somos de Cristo. Aliás, parece que as coisas importantes da vida como é a verdade, o respeito mútuo, a justiça, a caridade, a própria vida, passaram a dizer-se baixinho, quase em segredo, como sendo insignificantes. Contraditoriamente insignificantes. Haverá então maior desafio do que o de ser “ousada e significativamente insignificante” celebrando a Eucaristia como memorial do Amor de Deus pela humanidade, acompanhando o caminhar de tantos irmãos, oferecendo por ministério os dons de Deus à mesma humanidade nos Sacramentos, ansiando pela verdade?!

O que faz um jovem querer ser Padre?! O facto de ter permitido que a sua “vontade de servir” fosse cativada por Jesus Cristo como projecto de vida! “Vem e segue-Me” continua Jesus a dizer a tantos. O que será preciso para ter hoje a coragem de ser insignificante, “ousada e significativamente insignificante”?!

p. Emanuel Matos Silva
Reitor do Seminário Diocesano









SÍNODO DIOCESANO

Diocese de Portalegre - Castelo Branco

Oração do Sínodo


Senhor Jesus Cristo,

Bom Pastor,
Caminho, Verdade e Vida,
somos vosso Povo, vossa Igreja.
A vossa Palavra nos congrega e nos reúne,
o Baptismo em vosso Nome nos identifica.
O Vosso Corpo,
feito Pão de cada dia,
nos alimenta.
O vosso perdão nos renova.
A resposta ao vosso chamamento,
a entrega da nossa vida,
nos fazem vosso sinal, sacramento e testemunho.
Dai-nos, Senhor, por vosso Espírito,
uma consciência viva dos vossos dons,
uma confiança inabalável na vossa vontade,
uma fidelidade livre no vosso serviço,
uma alegria terna no testemunho do Reino.
Dai, Senhor, à nossa Diocese em Sínodo
a graça de reavivar os vossos dons.
Dai-nos, Senhor,
a força da comunhão na diversidade,
a alegria da harmonia nos projectos,
a ousadia da esperança no confronto da história,
a confiança e a serenidade da fé na adversidade,
a força do caminho feito em conjunto.
Fazei, Senhor,
Que, encontrando em Vós
A rocha firme do nosso alicerce,
Manifestemos com a vida
A beleza dos vossos dons.
E que Santo António, nosso Padroeiro,
Homem de coração profundo e
Sinal de unidade;
E vossa Mãe Santíssima,
A nossa Mãe do Céu e de todas as horas e momentos,
Nos ajudem a saborear a felicidade e a alegria
de sermos vossos discípulos
E nos guiem sempre
Para Vos darmos a conhecer ao mundo.
Amen.









Segunda-feira, Abril 18, 2011



O Tríduo Pascal

- momentos diferentes de uma única Páscoa -

Cristo entrega-Se na Cruz no momento em que os judeus celebram a Festa da Páscoa, comemoração da Aliança (antiga) entre deus e o seu Povo. Mas com a Ressurreição de Cristo esta festa ganha novo horizonte e é transcendida, ganha novo sentido: é sinal de passagem da morte á vida em Jesus Cristo, a manifestação do poder redentor de Deus, o fundamento da fé na Nova Aliança anunciada pelos Profetas. A Páscoa é, por isso, a principal e mais importante celebração da liturgia cristã, a celebração em torno da qual se organiza todo o ano litúrgico. De facto, o centro do Cristianismo é Jesus Cristo e o mistério central da sua vida é o mistério da sua paixão, morte e ressurreição, ou seja, a sua Páscoa. Na celebração litúrgica da Páscoa, o Tríduo Pascal ocupa o lugar central. Tríduo Pascal é o tempo que se inicia com a celebração da Missa da Ceia do Senhor, em Quinta-feira Santa à tarde, e que termina com o Domingo da Ressurreição.

As raízes bíblicas desta celebração podem ser encontradas na Páscoa do Senhor (Ex 12 em que Deus passa para salvar o seu povo), na Passagem do Mar Vermelho (Ex 14), na Páscoa dos Judeus (Deut 16, 1- 8; Ex 13, 3 – 10), na Páscoa de Jesus (Jesus celebra e, sobretudo, vive a nova Páscoa), na Páscoa da Igreja (celebra o memorial e vive o mistério).

Quinta Feira Santa – Uma vida dada livremente e por amor
O Tríduo Pascal inicia-se, como se disse, com a celebração da Ceia do Senhor em 5ª feira Santa ao entardecer. Evoca-se nesta celebração a última ceia de Jesus com os seus discípulos, aquela precisamente em que Jesus Se ofereceu (Corpo e Sangue) a Deus e à humanidade e undicou aos discípulos que fizessem o mesmo com as suas vidas.
O início da celebração do Tríduo Pascal chama, portanto, a atenção para a Eucaristia como memorial de Jesus Cristo na sua paixão, ou seja, na sua entrega por amor. Podemos dizer que a Eucaristia, cuja instituição se celebra neste dia, é o Mistério Pascal concentrado. O Pai não quer a morte de Jesus, quer sim que Jesus permaneça na sua justiça, na sua caridade, na solidariedade com todas as vítimas de todos os tempos.
Por isso, ao mesmo tempo que entrega a sua vida por amor, Jesus antecipa nos sinais do pão e do vinho aquilo que vai acontecer: o seu corpo é “partido” e dado à humanidade e o seu sangue derramado e dado por todos. E o sinal da sua morte iminente torna-se sacramento de acção de graças.

Sexta Feira Santa – Boa Nova para todos os pecadores
Este é o dia em que a Igreja se congrega para celebrar a Paixão de Jesus e a sua Cruz. É, de igual forma, o dia em que a Igreja percebe o seu nascimento e a sua missão de Igreja como Corpo de Cristo.
A Cruz é o encontro de duas “lógicas” – a “lógica do Amor de Deus” e a “lógica do pecado”, ou seja a “lógica do Amor de Deus” que dá o seu Filho à humanidade pecadora, lógica do Amor no Verbo Encarnado. A existência de Jesus foi uma existência vivida na consciência da “hora” que estava para chegar. Assim, desde o início, a vida de Cristo foi Cruz. Jesus dedicou toda a sua vida ao cumprimento da missão que e vontade do Pai Lhe havia revelado e confiado. Se a essência de Deus é o Amor, então a Cruz pertence à essência de Deus. Mas a Cruz não prevalece sobre Cristo. É Cristo Quem dá glória e valor à Cruz. Frente à crueza de um símbolo objectivo (uma Cruz), o olhar de fé faz ver a Cruz não como princípio de morte, mas como princípio de vida. Na medida em que ela encerra a exemplaridade de Jesus Cristo (transformar a morte e o seus princípios em vida e princípios de vida - do ódio e da violência ao amor e ao perdão...) a Cruz é motor transformador da História e de todas as histórias da história humana .

Sábado Santo – Silêncio de Deus, silêncio do homem
Parece paradoxal falar do Sábado Santo já que é o dia do mais profundo e belo silêncio. Os próprios Evangelhos parecem “calar-se” perante este tempo. É o dia em que a Igreja permanece junto ao sepulcro meditando na sua paixão e esperando a sua ressurreição. O silêncio orante e o recolhimento, para meditação, são então a melhor celebração de Sábado Santo. É o tempo de esperar que a semente deitada a terra germine e se mostre em vida nova. A Cruz continua a ser o centro da atenção.

Páscoa – Ó morte, onde está a tua vitória?
Naquela manhã as mulheres iam venerar um morto, mas é a vida que lhes é anunciada e é Cristo Vivo que se cruza com elas. É dia, por isso, de proclamar a vitória da vida sobre a morte e sobre o pecado. A morte não é, de facto, a última palavra da vida de Cristo, mas Cristo é a última palavra da morte.
As aparições do Ressuscitado, como no-las referem os evangelistas, têm todas um esquema comum:
a) uma situação de medo, de falta de fé, de tristeza.
Maria Madalena chora; os discípulos de Emaús estão tristes; os Apóstolos no Cenáculo estão cheios de medo.
b) Jesus aparece e não é reconhecido imediatamente. No entanto, Jesus pergunta, interroga e interpela: porque choras; que se passou?; Onde vais?
c) Em cada aparição produz-se uma revelação de Jesus. Maria Madalena reconhece-O quando Ele chama, os disc. Emaús, fazem-no a partir do pão, outros(João) a partir do barco no lago: “É o Senhor”
d) Conclui-se sempre com uma missão como responsabilidade. A aparição não é apenas um consolo para a pessoa a quem Jesus aparece. Jesus entrega sempre uma missão: anunciar e partilhar a alegria.

A Ressurreição de Jesus Cristo é, por isso, quase o grito de afirmação da liberdade do próprio Deus (“não sou quem pensais..”) e, ao mesmo tempo, a revelação do verdadeiro homem ao próprio homem, o caminho para a “humanização” do homem, ou seja, a afirmação de que o sábado é para o homem, a afirmação do homem em diálogo com Deus e acolhido por Deus. A fé, a esperança e a caridade não são possíveis se não se acredita na ressurreição. A nossa última palavra, portanto, não é a morte nem o inferno, mas a vitória sobre a morte e sobre o inferno. A Páscoa abre para toda a humanidade o horizonte da eternidade: “Ó morte, onde está a tua vitória?”. Como dizia Isaac de Nínive, o único e verdadeiro pecado é não acreditar e permanecer insensível à ressurreição.
p. Emanuel Matos Silva