O Tríduo Pascal
- momentos diferentes de uma única Páscoa -
Cristo entrega-Se na Cruz no momento em que os judeus celebram a Festa da Páscoa, comemoração da Aliança (antiga) entre deus e o seu Povo. Mas com a Ressurreição de Cristo esta festa ganha novo horizonte e é transcendida, ganha novo sentido: é sinal de passagem da morte á vida em Jesus Cristo, a manifestação do poder redentor de Deus, o fundamento da fé na Nova Aliança anunciada pelos Profetas. A Páscoa é, por isso, a principal e mais importante celebração da liturgia cristã, a celebração em torno da qual se organiza todo o ano litúrgico. De facto, o centro do Cristianismo é Jesus Cristo e o mistério central da sua vida é o mistério da sua paixão, morte e ressurreição, ou seja, a sua Páscoa. Na celebração litúrgica da Páscoa, o Tríduo Pascal ocupa o lugar central. Tríduo Pascal é o tempo que se inicia com a celebração da Missa da Ceia do Senhor, em Quinta-feira Santa à tarde, e que termina com o Domingo da Ressurreição.
As raízes bíblicas desta celebração podem ser encontradas na Páscoa do Senhor (Ex 12 em que Deus passa para salvar o seu povo), na Passagem do Mar Vermelho (Ex 14), na Páscoa dos Judeus (Deut 16, 1- 8; Ex 13, 3 – 10), na Páscoa de Jesus (Jesus celebra e, sobretudo, vive a nova Páscoa), na Páscoa da Igreja (celebra o memorial e vive o mistério).
Quinta Feira Santa – Uma vida dada livremente e por amor
O Tríduo Pascal inicia-se, como se disse, com a celebração da Ceia do Senhor em 5ª feira Santa ao entardecer. Evoca-se nesta celebração a última ceia de Jesus com os seus discípulos, aquela precisamente em que Jesus Se ofereceu (Corpo e Sangue) a Deus e à humanidade e undicou aos discípulos que fizessem o mesmo com as suas vidas.
O início da celebração do Tríduo Pascal chama, portanto, a atenção para a Eucaristia como memorial de Jesus Cristo na sua paixão, ou seja, na sua entrega por amor. Podemos dizer que a Eucaristia, cuja instituição se celebra neste dia, é o Mistério Pascal concentrado. O Pai não quer a morte de Jesus, quer sim que Jesus permaneça na sua justiça, na sua caridade, na solidariedade com todas as vítimas de todos os tempos.
Por isso, ao mesmo tempo que entrega a sua vida por amor, Jesus antecipa nos sinais do pão e do vinho aquilo que vai acontecer: o seu corpo é “partido” e dado à humanidade e o seu sangue derramado e dado por todos. E o sinal da sua morte iminente torna-se sacramento de acção de graças.
Sexta Feira Santa – Boa Nova para todos os pecadores
Este é o dia em que a Igreja se congrega para celebrar a Paixão de Jesus e a sua Cruz. É, de igual forma, o dia em que a Igreja percebe o seu nascimento e a sua missão de Igreja como Corpo de Cristo.
A Cruz é o encontro de duas “lógicas” – a “lógica do Amor de Deus” e a “lógica do pecado”, ou seja a “lógica do Amor de Deus” que dá o seu Filho à humanidade pecadora, lógica do Amor no Verbo Encarnado. A existência de Jesus foi uma existência vivida na consciência da “hora” que estava para chegar. Assim, desde o início, a vida de Cristo foi Cruz. Jesus dedicou toda a sua vida ao cumprimento da missão que e vontade do Pai Lhe havia revelado e confiado. Se a essência de Deus é o Amor, então a Cruz pertence à essência de Deus. Mas a Cruz não prevalece sobre Cristo. É Cristo Quem dá glória e valor à Cruz. Frente à crueza de um símbolo objectivo (uma Cruz), o olhar de fé faz ver a Cruz não como princípio de morte, mas como princípio de vida. Na medida em que ela encerra a exemplaridade de Jesus Cristo (transformar a morte e o seus princípios em vida e princípios de vida - do ódio e da violência ao amor e ao perdão...) a Cruz é motor transformador da História e de todas as histórias da história humana .
Sábado Santo – Silêncio de Deus, silêncio do homem
Parece paradoxal falar do Sábado Santo já que é o dia do mais profundo e belo silêncio. Os próprios Evangelhos parecem “calar-se” perante este tempo. É o dia em que a Igreja permanece junto ao sepulcro meditando na sua paixão e esperando a sua ressurreição. O silêncio orante e o recolhimento, para meditação, são então a melhor celebração de Sábado Santo. É o tempo de esperar que a semente deitada a terra germine e se mostre em vida nova. A Cruz continua a ser o centro da atenção.
Páscoa – Ó morte, onde está a tua vitória?
Naquela manhã as mulheres iam venerar um morto, mas é a vida que lhes é anunciada e é Cristo Vivo que se cruza com elas. É dia, por isso, de proclamar a vitória da vida sobre a morte e sobre o pecado. A morte não é, de facto, a última palavra da vida de Cristo, mas Cristo é a última palavra da morte.
As aparições do Ressuscitado, como no-las referem os evangelistas, têm todas um esquema comum:
a) uma situação de medo, de falta de fé, de tristeza.
Maria Madalena chora; os discípulos de Emaús estão tristes; os Apóstolos no Cenáculo estão cheios de medo.
b) Jesus aparece e não é reconhecido imediatamente. No entanto, Jesus pergunta, interroga e interpela: porque choras; que se passou?; Onde vais?
c) Em cada aparição produz-se uma revelação de Jesus. Maria Madalena reconhece-O quando Ele chama, os disc. Emaús, fazem-no a partir do pão, outros(João) a partir do barco no lago: “É o Senhor”
d) Conclui-se sempre com uma missão como responsabilidade. A aparição não é apenas um consolo para a pessoa a quem Jesus aparece. Jesus entrega sempre uma missão: anunciar e partilhar a alegria.
A Ressurreição de Jesus Cristo é, por isso, quase o grito de afirmação da liberdade do próprio Deus (“não sou quem pensais..”) e, ao mesmo tempo, a revelação do verdadeiro homem ao próprio homem, o caminho para a “humanização” do homem, ou seja, a afirmação de que o sábado é para o homem, a afirmação do homem em diálogo com Deus e acolhido por Deus. A fé, a esperança e a caridade não são possíveis se não se acredita na ressurreição. A nossa última palavra, portanto, não é a morte nem o inferno, mas a vitória sobre a morte e sobre o inferno. A Páscoa abre para toda a humanidade o horizonte da eternidade: “Ó morte, onde está a tua vitória?”. Como dizia Isaac de Nínive, o único e verdadeiro pecado é não acreditar e permanecer insensível à ressurreição.
p. Emanuel Matos Silva